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Olhar Instigado Por Fred Melo Paiva*

Como sugere seu título, “Olhar Instigado” propõe um outro ponto de vista.

Existe hoje no Brasil, especialmente em São Paulo, uma discussão sem fim sobre a arte de rua, seu valor e suas finalidades. É uma discussão histérica e um tanto estéril, já que prolifera nas redes sociais, cada vez mais o espaço do não-diálogo e das certezas absolutas definidas pelos algoritmos e suas bolhas de pensamento.

 

Como sugere seu título, “Olhar Instigado” propõe um outro ponto de vista. O pixo, o grafite e as intervenções urbanas podem ser consideradas arte? No lugar de se ater à pergunta que já foi feita tantas vezes, o documentário de estreia dos diretores Chico Gomes e Felipe Lion concentra-se no processo de criação de três artistas de rua. Ou dois, vá lá, já que o terceiro é justamente o pichador – aquele que para alguns é simples criminoso; para outros, um artista revolucionário; e para o próprio... bem, o próprio deseja apenas deixar sua marca e, como o surfista de trem que ele também é, fazer correr nas veias um pouco da adrenalina da qual é dependente, para o desespero de sua mãe.

 

“Uma boa parte das pessoas que vivem em São Paulo sentem que o uso do espaço público é totalmente equivocado”, diz o diretor Chico Gomes. “Os personagens do filme são os porta-vozes desse sentimento.” No sentido mais amplo do que a disputa partidária, “Olhar Instigado” é um filme político que chega em boa hora, quando o novo prefeito acaba de declarar guerra aos pichadores e novas regras aos grafiteiros. “O movimento de ocupação das ruas é claramente político”, define Chico. “Que as autoridades procurem se informar melhor sobre essa cultura que vem sendo cultivada há anos, que busquem compreender suas intenções.”

 

Com uma fotografia capaz de tornar mais bela tanto a beleza como a feiúra de São Paulo, “Olhar Instigado” mistura o documentário em estilo observacional – que apenas observa, sem maiores interferências – com aquele outro em que os personagens discorrem sobre suas ideias, provocando uma profunda reflexão sobre a cidade que queremos.

 

Por vezes, é como se acompanhássemos Duchamp a uma loja de material de construção onde pretende adquirir seu urinol. Por outras, é como se ouvíssemos o mesmo Duchamp explicar o sentido daquilo, esmiuçar sua crítica, provocar. Há, ainda, um comedido mas interessante espaço de fala do público – como se alguém perguntasse ao bilheteiro da famosa exposição de 1917 o que achava daquela peça de arte sobre a qual certamente já se aliviara tantas vezes.   

 

“Começamos a planejar o doc”, conta Chico, “a partir do desejo de discutir o espaço público”. Acabaram por fazer, também, um filme sobre São Paulo – com seus conflitos e suas esperanças, sua arquitetura do caos e seus tipos humanos.    

 

“Olhar Instigado” acompanha três pessoas no trabalho de composição de suas obras. O grafiteiro e artista plástico André Monteiro, o Pato, está construindo um engenhoso boneco  para ser instalado na superfície de um córrego onde sua mãe nadava quando pequena (hoje, esgoto a céu aberto). Munido de uma roda d’água, a estrutura de madeira abriria e fecharia os olhos e a boca à medida em que o rio fluísse (se é que ele flui, tamanha sua degradação). Para produzi-lo, André nos leva com ele para uma caçada às engrenagens perfeitas que farão funcionar (ou não) a geringonça. E lá vamos nós em sua incrível Belina amarela.

 

Alexandre Orion é um grafiteiro – ou muralista, como queira – famoso também pelas caveiras que desenha dentro de túneis da cidade usando apenas um pano limpo sobre a fuligem. “Resíduo que descama da sociedade”, diz, enquanto questiona “o sistema que nos transforma em ratos na gaiola, sempre correndo atrás de suas recompensas”.

 

No filme, Orion está trabalhando na imagem gigante de uma criança desenhada na empena de um prédio no bairro do Grajaú, periferia sul de São Paulo. À tinta que utiliza, ele mistura a fuligem retirada dos túneis no processo de fazer suas caveiras – uma ressignificação daquilo que “descama da sociedade”.   

 

Bruno Locuras, por sua vez, é o controverso pichador nas mais loucas aventuras. Escala prédios, picha equipamentos urbanos, corre da Polícia – coitada da sua mãe. Não se trata de ser ou não ser arte, mas daquilo que ele precisa “colocar pra fora”. Como sua “obra” dificilmente o transformará nos Gêmeos, ele consegue um emprego: Locuras trabalha na pintura e conservação de fachadas de prédios, o que inclui apagar os pixos – de dia, reza na cartilha cinza do prefeito; à noite, é seu inimigo preferencial.    

 

Em 70 minutos, “Olhar Instigado” nos leva a instigantes reflexões. A quem pertence o espaço público de uma cidade? A quem pertence o lado de fora do muro? A quem pertence a paisagem que você vê da janela, sempre prestes a ser anulada por um espigão neoclássico de gosto duvidoso? Quem detém o direito da curadoria capaz de definir o que pode e o que não pode no espaço anárquico das ruas? “Todo trabalho feito na rua é político por excelência”, diz Orion. “É como se fosse um grito”.

 

Essas e outras questões atravessam a narrativa do documentário sem que suas respostas sejam impostas como a verdade absoluta. Cabe ao espectador digerir aquele conjunto de informações e tirar suas próprias conclusões a respeito da propriedade da rua, do embate entre o público e o privado, do grito dos excluídos anunciado em tintas e letras sobre os muros que nos separam.

 

* Fred Melo Paiva é jornalista, apresentador das séries O Infiltrado (History) e Cidade Ocupada (Gazeta). Foi diretor de redação da revista Trip e editor de O Estado de S. Paulo.



Autor: Guilherme Mendes Ayala | Facebook

Gerente de Marketing e publicitário. Apaixonado por cinema, séries, animes, mangás... ok muita coisa. E claro, um bom som!


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